REFLETINDO SOBRE SENNA

(JOÃO HEITOR, MEU FILHO DE 3 ANOS, ESCONDE-SE ATRÁS DA BIOGRAFIA DE SENNA ESCRITA POR ERNESTO RODRIGUES)
Eu adoro BLOGs de F1. Eles permitem que a gente esquadrinhe não apenas a opinião de um dado “especialista”, mas também do público, da audiência de um país que ali se expressa.
Gosto dos BLOGs ingleses pela qualidade técnica e perspectiva histórica da Formula 1 que os seus leitores têm. Gosto dos BLOGs espanhóis pela diversidade de opinião absolutamente contrária a dos ingleses e pelo “profundo” conhecimento sobre Fernando Alonso que eles dispõe e partilham.
O dado comum entre os dois é que o público que costumeiramente opina neles tem a clara percepção de que Ayrton foi o “the greatest ever, ou “El mejor” de todos. É fácil encontrar opiniões desse tipo escrita aqui abaixo:
“Hoje, eu vejo Ayrton provavelmente como o melhor piloto da F1 de todos os tempos. Suas conquistas, ainda que não tão impressionantes como as de Michael Schumacher, foram conseguidas contra duros e talentosos opositores, ou na maioria das vezes contra um companheiro de equipe com um carro exatamente igual. Ele trouxe inovações para a “técnica de guiar um Formula 1” que tiveram que ser assimiladas e morreu antes, bem antes de estarmos prontos para ver um fim em sua esplêndida e inspiradora habilidade. Em nossas mentes ele tornou-se imortal e seu desaparecimento tão cedo foi chocante exatamente por causa disso tudo.
Talvez seja verdade que aqueles a quem Deus ama, morram jovens – esta talvez seja a única explicação que faça sentido quando consideramos a maneira como Ayrton foi tirado de nós.”
(C. Allen – inglês, no BLOG do Ed Gorman)
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Um leitor espanhol, mais contido que o expressivo inglês acima, põe em perspectiva a importância de Senna em sua vida:
“É difícil igualar seus duelos, suas corridas em baixo de chuva, sua humildade e, sobretudo, sua entrega porque começou correndo em uma Toleman que andava menos que uma Superaguri…
Hoje, 14 anos depois, segue para mim parecendo um piloto fantástico. E lhe serei sempre grato porque foi ele que me levou a amar a Formula 1.
(FEDE – comentarista espanhol no BLOG do Ed Gorman)
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São dois relatos que escolhi entre muitos que já li, pois no fundo falam de uma maneira como eu via Senna e como ainda o vejo.
A nossa percepção de Senna como ídolo do automobilismo está embebida exatamente nessa perspectiva histórica brasileira, socialmente trágica e politicamente degradante, que nos faz elevá-lo acima do que ele realmente foi, um piloto de Formula 1.
É aí que os ingleses, espanhóis, e com certeza grande parcela da Europa que também ama o automobilismo, tem a acrescentar na impressão mais centrada em Ayrton apenas com o piloto e menos como herói neo Sebastianista brasileiro. E é essa opinião exterior, menos suscetível ao nosso confuso julgamento dentro do Brasil, delegando a Senna a tarefa de redentor, que se percebe como Ayrton povoa o imaginário de todo fã de Formula 1 como o maior de todos.
Por outro lado, olhando estritamente para a F1 hoje, é fácil verificar que a morte do Ayrton não deixou apenas como legado uma maior preocupação com a segurança, mas também remodelou a categoria e tornou-a profundamente desinteressante como competição e como esporte. A procura constante por diminuir a velocidade dos carros em curva (diminuição constante da aderência mecânica por meio dos pneus raiados, aumento exponencial de downforce, etc) transformou ano a ano os campeonatos em entediantes procissões, a ponto de a corrida da Espanha do último fim de semana ter apenas três ultrapassagens (Lewis sobre Kubitza na largada, Nick sobre Giancarlo, Coulthard sobre Sato!).
Sob o ponto de vista das gerações que precederam Senna, nada é mais comovente e “estranho” do que o copioso choro de Schumacher na coletiva após quebrar o recorde de poles de Senna, talvez revelando um pouco da confusa relação que Michael, o homem mais próximo dele, que viu Senna morrer a sua frente, tinha com a figura do piloto “mais rápido de todos os tempos”.
Ponderando sobre Michael, há de se pontuar que há uma espécie de corrente predatória na Formula 1, com os velhos pilotos sendo predados pelos novos: Prost predando Lauda, Senna predando Prost; Schumacher predando NINGUÉM; Alonso predando Schumacher; Lewis predando Alonso…
Há esse terrível GAP na carreira de Schumacher, ele não se colocou no panteão dos grandes derrotando um outro grande. Ele estará para sempre à sombra de um gigante que seus recordes jamais derrotarão.
Já Senna, em toda a sua carreira, perseguiu outro gigante que ele jamais derrotaria e na festa de sua segunda vitória no Brasil, ao receber das mãos de seu ídolo o troféu de primeiro colocado, Ayrton, visivelmente desgastado pela prova, fez questão de descer tropegamente do seu lugar de Nº 1 naquele dia para abraçá-lo. Uma suprema lição de humildade.
Sem dúvida, de todos os pilotos da história, Senna é o que mais se destaca na visão da maioria. Sua trajetória o transformou em um mito, e por vários fatores. Não é por acaso que até os europeus, em sua maioria, o colocam como o melhor.
E a imagem do Schumacher chorando com o número de vitórias não acontece todo dia. Um feito do Ayrton mesmo depois de morto.
Mas sobre o alemão, é importante lembrar que não tem culpa de não ter tido adversários à altura. Ele reconstruiu um equipe e a colocou no topo, e lá, sozinho, superou a todos por anos consecutivos. Também tem seus méritos…