UM MISTÉRIO CHAMADO KIMI RAIKKONEN

2008 Junho 4

(KIMI NA FERRARI – Pilotando o carro mais rápido da Formula 1 hoje)

Duas das mais quentes fofocas do paddock no momento parecem ter uma interessante interligação. A Primeira, que na verdade nunca foi assim tão quente e sigilosa, é sobre um pré-acordo entre Fernando Alonso e a Ferrari, fato que até a inexperiente Mariana Becker da REDE GLOBO, reportou durante a corrida de Mônaco. A segunda e mais interessante é sobre uma prematura aposentadoria do atual campeão mundial, Kimi Raikkonen, caso ele vença o seu segundo título na seqüência.

As fofocas são circunstanciais, vão e vem, mas Kimi parece nessa temporada longe de sua melhor forma e motivação. Alguns dirão, mas ele venceu duas corridas esse ano, e eu lhes direi que ele tem o melhor carro do grid. É sua obrigação vencer. Lewis Hamilton pilota uma McLaren quase dois décimos de segundo menos rápida por volta que a Ferrari do finlandês e mesmo assim venceu tantas corridas quanto ele esse ano e no momento é o líder do campeonato.

O fato é que Kimi apresenta todos os sinais de uma evolutiva desmotivação. O finlandês sempre deixou claro adorar a Formula 1, mas odiar o que está em torno da categoria, os eventos promocionais e outras compromissos oficiais, como a constante obrigação em manter a imagem limpa diante de fãs e patrocinadores.

Todo o teatro e misancene do mundo da Formula 1 atual parecem roubar em muito o prazer que o finlandês tem de apenas sentar em seu carro guiar. Tudo que não seja corrida o entediam mais e mais a cada dia.

Quando eu volto e relembro alguns momentos da carreira do Kimi na McLaren, o que eu percebo é que o Kimi atual parece uma sombra do que ele foi há quatro cinco anos atrás, quando pilotava um dos carros de Ron Dennis.

Eu me recordo precisamente de duas de suas corridas memoráveis do finlandês.

- Austrália em 2003: Ele se classificou em 15º, liderou a corrida, foi penalizado e ainda assim chegou em terceiro

- No Japão em 2005: Ele se classificou em 17º e simplesmente venceu a corrida, com o adendo de uma ultrapassagem no Fisichela que é uma das melhores dos últimos dez anos na Formula 1.

Havia uma interessante impressão a respeito do Kimi na época de seu prematuro surgimento. Ele era aquele piloto ainda verde e selvagem, com muito da personalidade matadora de Ayrton Senna, mas com muito menos arrogância. Kimi era o oposto do cerebral Schumacher em pista: o alemão foi o melhor “ultrapassador” em boxes da Formula 1, enquanto o finlandês, contrariamente, era capaz de fazer o trabalho sujo na pista, roda a roda, dando espetáculo.

O que é o Kimi hoje? Um burocrata pilotando uma poderosa Ferrari, que é um carro dois décimos de segundo mais rápido que o do inglês Lewis Hamilton.

Após o GP da Hungria em 2007 vencido por Lewis, Kimi deixou claro na coletiva de imprensa o quanto esteve entediado durante toda a corrida, ali, atrás do inglês. Abertamente, Kimi declara achar impossível fazer ultrapassagens na Formula 1 moderna. O problema nessa argumentação é que Lewis Hamilton, em Monza em 2007, em cima dele mesmo; Fernando Alonso em 2007 na França sobre o Nick Heidfeld; Nick Heidfeld sobre Fernando Alonso e Mark Webber (ao mesmo tempo!) em Sepang; e Lewis Hamilton novamente em Istanbul esse ano, todos eles provam que Kimi está errado. É possível ainda se ultrapassar na Formula 1, sim. E o pior, nenhum desses pilotos tem o super carro que Raikkonen tem nas mãos, mas todos eles parecem mais motivados e famintos por vencer que o finlandês.

Há quatro anos atrás, na época da McLaren, talvez Felipe Massa não desse tanto trabalho quanto vem dando ao finlandês esse ano e em 2007. Na prova dos Estados Unidos do ano passado, enquanto o Fernando Alonso lutava com todas as forças contra um Lewis decidido a vencer, Raikkonen se contentava em mostrar o bico do carro para o brasileiro no fim da grande reta.

Fuji, em 2007, talvez tenha sido um dos únicos momentos em que pudemos vislumbrar um pouco daquele seu brilho que vimos na Mclaren. E só. O resto foram vitórias burocráticas, pilotando o melhor carro, tendo como o seu ápice a vitória no Brasil, em que ele foi visivelmente ajudado por Felipe Massa na conquista de seu primeiro título.

Formula 1 não é apenas um campeonato de estatísticas, é entretenimento também, tanto para o público como também para os pilotos. Kimi parece entediado com a Formula 1, louco para correr em alguns Ralis, emulando um de seus heróis, o seu conterrâneo Ari Vatanen, campeão de Rali.

O problema para quem como eu adora a Formula 1 é entender que se o Kimi deseja mais emoção, por que simplesmente ele não corre para extrair da própria Formula 1 esse leque de emoção que lhe daria mais motivação? A resposta para mim é simples: a sede por “adrenalina” do Kimi, o desejo de emoção dele, se choca com o comprometimento que ele tem com os dólares que a Ferrari lhe paga. Kimi não se arrisca simplesmente porque é bem pago. E quando tenta, as suas corridas se transformam no caos que ele protagonizou em Mônaco e na Austrália, constrangimentos demais para um campeão mundial.

Há muitos boatos paralelos sobre a indolência do Kimi, sobre seu profundo desinteresse em liderar uma equipe, em trabalhar arduamente na melhoria de uma equipe e de um carro ou mesmo em se dedicar a marcar o seu nome em uma era da categoria como o piloto dominante. Tudo isso me soa como desprezo a Formula 1 e aos valores que a sustentam como a principal categoria do automobilismo mundial.

Enquanto Alonso se debatia como podia na rede de Lewis Hamilton, lutando até as últimas conseqüências contra a sua reputação de bicampeão arranhada, mas ao fim caindo de pé, a certeza sobre Kimi no lugar de Alonso é que ele não daria à mínima.

Para mim, não lugar na Formula 1 para indolência ou para a futilidade. A Formula não deve ser vista como apenas um hobbie para os pilotos ou mesmo um esporte radical. Há algo de muito profundo em caras que arriscam o seu pescoço, orgulho e ambição pessoal a 320 km/h.

Kimi Raikkonen, com a sua indiferença e milhões de dólares no bolso é hoje o chato mais veloz da Formula 1.

2 Respostas leave one →
  1. 2008 Junho 5

    Caro Lima:
    Em minha opinião, Kimi foi grande mesmo em 2005, o melhor da temporada apesar de não ter faturado o título, e só em 2005. Kimi é muito estranho, parece correr sem entusiasmo, sem garra. Não gostaria de contar com ele em uma equipe minha se fosse dono de uma. Além disso, não tem carisma para ser ídolo do esporte.

  2. 2009 Outubro 13
    joana permalink

    caramba!!!kimi não pode se aposentar de jeito nenhum ele embeleza a Fórmula 1

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