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ARTIGOS, FORMULA 1 MÍDIA

As biografias de Senna

biografias-de-senna(BIOGRAFIAS DE SENNA: muitas no mercado, mas poucas com qualidade)

Está no Tazio que o jornalista inglês, Christopher Hilton, um dos maiores especialista em Ayrton Senna no mundo, lançou “Senna: an Interactive Voyage”, mais um livro sobre o piloto brasileiro. O novo livro — que é o sétimo escrito por Hilton sobre Senna — é uma edição de luxo com documentos pessoais do piloto brasileiro, como cartas, itinerários de treinos e fotos inéditas.

Desses sete livros escritos por Hilton, apenas um foi publicado no Brasil, “Ayrton Senna — a face do gênio —”, lançado em 1992 pela Editora Rio Fundo. A edição que eu tenho em mãos é uma reimpressão datada de 1994, que eu suspeito ser um daqueles caça níqueis que buscaram faturar em cima da trágica morte de Senna.

Apesar da tradução sofrível — que transforma a curva Beckets de Silverstone em um piloto — e do descuido no projeto gráfico, esse é para mim um dos mais interessantes livros sobre Senna editado no Brasil. Primeiro por que a perspectiva do livro é estrangeira, o que não permite que o seu conteúdo seja contaminado pelo mito do herói nacional construído no Brasil. Segundo porque o livro é anterior a morte de Ayrton e isso nos permite perceber o impacto do piloto na categoria antes de sua morte e posterior canonização. O interesse sobre o livro recai na observação do quanto a trágica morte de Senna aparou as arestas das inimizades e rivalidades adquiridas durante a sua vitoriosa carreira.

O livro de Hilton não nos poupa de ver o quanto Senna era perseguido e criticado por imprensa, pilotos, dirigentes, torcedores e fãs de fora do Brasil. Nem a sua religiosidade era perdoada. Para se fazer uma analogia com os dias de hoje, era algo muito semelhante com o ocorrido com Lewis Hamilton em 2008. A imprensa inglesa achava Senna arrogante pelo seu veto “ao boa praça” Dereck Warwick, que seria o seu companheiro na Lotus em 86. Os tifosi o vaiavam pelas surras impiedosas que a Ferrari sempre tomou do brasileiro; e os pilotos não perdiam uma única oportunidade para acusá-lo de direção perigosa.

Claro, parte das acusações era o mais puro nonsense, motivada por inveja ou simples rivalidade. Senna não era a unanimidade e o semideus do automobilismo de hoje, e esse rancor contra ele no fundo era a verdadeira medida de sua grandeza e muito menos uma projeção real de seu caráter.

Outro livro obrigatório sobre o piloto é “Senna — o herói revelado —”, do jornalista brasileiro Ernesto Rodrigues. O projeto editorial gráfico do livro é, em uma palavra, primoroso. A pesquisa feita por Ernesto na construção do livro, criteriosa, detalhada e caprichosa. O texto é correto, sem imaginação ou estilo, mas serve bem como sustentação ao tema.

Fatalmente você perceberá que Ernesto não tem tanta intimidade com a complexa dinâmica do universo da Formula 1 e que o ponto forte do livro é mesmo a abordagem da vida de Senna no Brasil. Entre muitas histórias, Rodrigues aborda em detalhes a tempestuosa relação de Senna com Piquet e de como nasceu a tensa inimizade entre os dois; o culto à celebridade em torno do Ayrton herói do Brasil; e o impacto da sua morte na alma do brasileiro comum.

Em um dado momento da leitura você possivelmente se irritará com a insistência de Ernesto em provar que Senna não era gay — como sugeriu Piquet em tom de piada — enumerando uma série de casos amorosos do piloto. Aí talvez fosse o caso de uma abordagem mais científica, psicológica, da personalidade de pilotos introvertidos como Senna e não inflar algo que no fundo não teria tanta importância.

Há muitas biografias de Ayrton Senna no mercado, mas se você deseja relembrar e pôr em perspectiva a carreira de um dos maiores mitos da Formula 1 e de toda a história do automobilismo, esses dois livros são essenciais e complementares.

O de Ernesto Rodrigues você encontrará em qualquer boa livraria no Brasil, o de Christopher Hilton apenas importando ou tendo a sorte, como eu tive, de encontrá-lo empoeirado em um sebo qualquer de sua cidade.

Discussão

16 comentários sobre “As biografias de Senna

  1. Concordo com você, o livro do Ernesto rodrigues é melhor sobre a enxurrada de biografias que tiveram sobre o Senna.E talvez esse novo livro talvez seja interrante já que é a compliação de cartas,telegramas e citações que senna recebeu. Tem até um telegrama do Collor, nosso presidente na época…

    Publicado por marcos antônio | 25/02/2009, 6:53 pm
  2. Eu acho que para o fã “hard core” do Senna esse novo livro do Hilton deve ser um achado.

    Eu aceitaria de bom grado como presente, mas pelo preço, eu preferiria gastar em outros livros, como a recente autobiografia do Jackie Stewart ou a biografia do Schumacher escrita pelo James Allen.

    O problema é que o mercado editorial brasileiro no quesito automobilismo simplesmente não existe…

    Abraços

    Publicado por Becken Lima | 25/02/2009, 7:11 pm
  3. Becken, o mercado editorial brasileiro não existe em qualquer nicho um pouco mais especializado. O duro é que os livros de Formula 1 são quase sempre europeus e nem sempre ficam disponiveis nos sites das grandes livrarias americanas (e quando estão ficam com preço acima da média por serem importados), do contrario nem sairia muito caro.

    Publicado por Filipe Furtado | 25/02/2009, 7:36 pm
  4. Filipe,

    Vc tem ABSOLUTA razão quanto ao mercado editorial brasileiro. Só ganha dinehiro os Pailo Coelhos e Zibia Gasparetto da vida. E os livros de F1 são em sua grande maioria escritos na Inglaterra e comprar a coisa toda em Libra dói, e como dói, no bolso.

    Estou salivadno para ler as biografias do Stewart, do Hamilton (escrita pelo Mark Hughes, claro!) e a do Schumacher, mas esperando entre ar um free lancer para adquiri-las.

    Por acaso, onde vc está? Nos USA? Se sim, como foi a recepção midiática da USF1 por aí? Ao menos alguma menção na mídia esportiva em geral?

    Abraços!

    Publicado por Becken Lima | 25/02/2009, 7:46 pm
  5. A Biografia do Christopher Hilton é bem escrita e bem documentada. Li na época que foi lançada e trata mais do início da arreira do Ayrton, falando apenas das primeiras temporadas do campeão. Focando muito seus anos de Lotus.

    O problema é que o “cara” é fã do Ayrton Senna, e fica muito clara a tentativa de idolatrar o piloto, e olha que ele ainda estava vivo.

    É um bom livro, com boas declarações de envolvidos com Senna no início de sua trajetória, mais falta um ingrediente básico numa biografia séria que é o contraditório.

    Assisti a todas as corridas do Senna, desde a primiera no Brasil em 84 até a sua morte em 94 na Tamburello. Sempre fui um torcedor do Piquet, e como tal chegava a “não torcer por mais ninguém quando ele saia das provas”. Não me lembro de um dia específico ter “torcido” por Ayrton Senna, pois sempre o achei um pouco artificial. Essa impressão eu repito é de alguém que viveu toda aquela fase.

    Dentro das pistas, nunva vi nada igual. Nunca um piloto foi tão superior aos outros como Senna era nas pistas, principalmente no que tange a velocidade. Mais ele não era perfeito. Ele errava, muito. Tanto nas pistas como fora dela.

    O livro do Christopher Hilton tem como maior falha omitir os erros do brasileiro. Isso não o diminuiria em nada, afinal ele era apenas humano.

    Publicado por Sirlan Pedrosa | 25/02/2009, 11:21 pm
  6. Cara, eu moro em São Paulo. Como trabalho com cinema importo livro quase todo mês, os americanos sempre saem conta, mas os ingleses e franceses saem uma fortuna. Volta e meia namoro o livro sobre a Minardi que saiu uns anos atrás, mas ai faço as contas e percebo que vai me custar umns bomns 120-130 reais e desisto hehe

    Publicado por Filipe Furtado | 25/02/2009, 11:37 pm
  7. Opa! Se o Senna era perseguido, o que sempre foi Nelson Piquet. Senna podia até ser perseguido lá fora, mas aqui Becken, sempre foi tratado como um Deus. Aliás, fazia questão de cuidar de cada milímetro de sua imagem. Era obssessivo e metódico ao extremo.

    Volto a dizer, se Senna foi um perseguido Piquet foi crucificado vivo, a diferença era que Piquet nunca se importou com o fato da imprensa ignorá-lo ou perseguí-lo, até gostava disso, pois sabia escrachar um repórter como ninguém.

    Publicado por Cassius Clay Regazzoni | 26/02/2009, 1:00 am
  8. Sirlan – eu não sei qual edição dessa biografia vc tem, mas a minha, pelo menos, exatamente metade dela é focada no período em que Senna pilotava pela McLaren.

    Na minha edição Hilton não esconde o criticismo ao piloto nem os seus erros, e é isso o que destaco na minha sintética resenha pois é exatamente o que me faz gostar do livro.

    Vc tem razão quanto a ser bem documentada, mas a tradução feita aqui no Brasil tira muito de qualquer atrativo estilístico que o autor tentou imprimir à sua redação, que é uma pena pois os jornalistas ingleses especializados em automobilismo são elegantes estilistas da língua inglesa, como Nigel Roebuck, Joe Saward ou mesmo Mark Hughes, o meu preferido.

    Eu acho que a biografia escrita por Ernesto Rodrigues tem mais o perfil de um grande fã escrevendo sobre o seu ídolo, mas eu acho que isso não o impediu de escrever um belo livro.

    Abraços

    Publicado por Becken Lima | 26/02/2009, 1:05 am
  9. Sinceramente, Cassius, eu nunca tive a impressão de que o Piquet era perseguido no Brasil… :)

    Eu acho que o Piquet, em termos de PR, estava c**ando para o que pensavam ou escreviam sobre ele, e nisso ele se assemelhava a um James Hunt, com o perfil de um piloto mais romântico. Eu sempre gostei dessa atitude do Piquet.

    O Senna, talvez fosse o exemplo do piloto moderno ciente do que as grandes corporações querem quando o assunto é a percepção de sua marca e filosofias. Ele se sentiria muito bem nessa F1 de hoje. Isso, eu admiro.

    Há um trecho na biografia do Hilton que o primeiro teste feito pelo Senna na McLaren. Junto para testar com ele estava o Martin Brundle, que foi o seu principal oponente na F3 inglesa. Diz o Brundle que enquant ele era um caipira e estava lá sozinho, o Senna tinha uma comitiva em volta dele tentando negociar outro teste, pois o Senna tinha estourado o motor da mcLaren com três voltas de teste.

    Não se pode condenar ninguém por ser profissional, e talvez esse seja um dos grande exemplos que Senna passou à frente como ídolo.

    Abração!

    Publicado por Becken Lima | 26/02/2009, 1:18 am
  10. Ontem ganhei de um amigo – o Alexander Grünwald, produtor do Grid Motor – mais um para minha coleção: “Four Seasons at Ferrari – The Lauda Years”, do renomado Alan Henry. Assim que terminar a leitura tentarei passar minhas impressões lá no blog.

    Publicado por Alexandre Carvalho | 26/02/2009, 1:19 am
  11. Quanto às biografias de Senna, tenho apenas três: as duas que você citou neste post e “Ayrton Senna do Brasil”, do Francisco Santos, que tive o prazer de conhecer pessoalmente no final do ano passado, quando ele passava férias no Brasil.

    Gostei muito da biografia do Francisco na época em que ela foi lançada, cinco meses após a morte de Senna, mas a do Ernesto Rodrigues é insuperável. Mesmo sendo ele um fã declarado não só de Senna mas da Fórmula-1, o livro é excelente para quem gosta de publicações recheadas de detalhes e dados históricos.

    Publicado por Alexandre Carvalho | 26/02/2009, 1:22 am
  12. adorei e concordo com que escreveu.Eu acho que o Piquet, em termos de PR, estava c**ando para o que pensavam ou escreviam sobre ele, e nisso ele se assemelhava a um James Hunt, com o perfil de um piloto mais romântico. Eu sempre gostei dessa atitude do Piquet.Na minha edição Hilton não esconde o criticismo ao piloto nem os seus erros, e é isso o que destaco na minha sintética resenha pois é exatamente o que me faz gostar do livro.

    Vc tem razão quanto a ser bem documentada, mas a tradução feita aqui no Brasil tira muito de qualquer atrativo estilístico que o autor tentou imprimir à sua redação, que é uma pena pois os jornalistas ingleses especializados em automobilismo são elegantes estilistas da língua inglesa, como Nigel Roebuck, Joe Saward ou mesmo Mark Hughes, o meu preferido.

    Eu acho que a biografia escrita por Ernesto Rodrigues tem mais o perfil de um grande fã escrevendo sobre o seu ídolo, mas eu acho que isso não o impediu de escrever um belo livro.Vc tem ABSOLUTA razão quanto ao mercado editorial brasileiro. Só ganha dinehiro os Pailo Coelhos e Zibia Gasparetto da vida. E os livros de F1 são em sua grande maioria escritos na Inglaterra e comprar a coisa toda em Libra dói, e como dói, no bolso.

    Estou salivadno para ler as biografias do Stewart, do Hamilton (escrita pelo Mark Hughes, claro!) e a do Schumacher, mas esperando entre ar um free lancer para adquiri-las.

    Por acaso, onde vc está? Nos USA? Se sim, como foi a recepção midiática da USF1 por aí? Ao menos alguma menção na mídia esportiva em geral?

    Publicado por dalva andressa soares lopes | 25/11/2009, 9:29 am
  13. adorei

    Publicado por dalva andressa soares lopes | 25/11/2009, 9:30 am
  14. Dalva – Só uma pergunta: Qual o objetivo de sintetizar alguns trechos os comentários em um só como vc fez?

    Publicado por Becken Lima | 25/11/2009, 10:39 am
  15. cada louco q aparece hehehehe

    Publicado por Alex-Ctba | 25/11/2009, 12:28 pm
  16. Essa Dalva “tem pobrema”….rsrs

    Publicado por KENISMAR | 21/03/2010, 5:07 pm

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