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ARTIGOS, FORMULA 1 MÍDIA

A Formula 1 e os seus públicos

(FOTO: EL PAIS)alonso en oviedo(FERNANDO ALONSO recebe apoio da mais apaixonada torcida da Formula 1 no mundo hoje.)

Dois públicos, duas percepções

Uma das minhas professoras de teoria literária, sempre dizia que toda grande obra de arte tem diferentes níveis de leitura. Formula 1, obviamente, não é arte, mas assim como a boa arte, sua complexidade acaba dividindo o seu público em vários grupos distintos, que têm diferentes percepções do jogo.

Eu e você, com perdão da pouca modéstia, podemos ser enquadrados entre a elite, aqueles que absorvem o esporte com prazer e conhecimento análogo àqueles que degustam um belo Chianti.

Esses finos apreciadores podem ser chamados de entusiastas. Eles são capazes de destrinchar detalhes técnicos e históricos do esporte; interessar-se pela sua faceta política ou midiática — ou, simplesmente, se divertir com elaborados e aparentemente inúteis detalhes estatísticos. São essas pessoas que entendem as sutilezas da F1, que são capazes de entender e respeitar o valor de cada piloto ou equipe, que vagam pela internet à busca de informação detalhada e acurada sobre o esporte.

Como conseqüência de tão profundo interesse, são eles que criam e elaboram conteúdo paralelo ao fornecido pelos veículos de comunicação já consagrados, escrevendo sobre o esporte em blogs e que encontram-se em fóruns para discutir esses intrincados detalhes.

O outro grupo, maior e mais homogêneo, é aquele capturado pela voracidade da televisão ao redor do mundo. São, mais distintamente, “telespectadores”. Eles jamais construirão a sua rotina de final de semana em torno do grande evento da F1, a corrida. Jamais se disporão a consumir altas cargas de crua informação para discutir o esporte à exaustão após cada corrida. O grande apelo que mantém esse público atado ao esporte é, na maioria das vezes, o apoio a qualquer piloto (às vezes equipe) que com ele divida a mesma nacionalidade.

Para a FOM, companhia detentora dos direitos da F1, o público mais importante, não há muita dúvida, é esse, maior e mais homogêneo, mas menos crítico e hábil para perceber as sutilezas e detalhes do esporte.

A influência da TV e do público sobre a F1

No decorrer dos anos, a F1 tornou-se cada vez mais dependente do dinheiro proveniente dos direitos de exibição da TV. Não é raro que a procura da FOM por audiência comprometa a identidade da categoria e a deforme como esporte, tornando-a mais confusa. Não é coincidência, então, que décadas atrás, quando a influência desse público e da televisão eram menores, o esporte tinha regras técnicas mais consolidadas e estáveis.

A adoção do safety-car e do reabastecimento no início da década de 90, as sucessivas formatações da classificação, ou mesmo a recente e malograda sugestão na mudança do sistema de pontuação, são exemplos do esporte sofrendo mutações no decorrer dos anos em nome do espetáculo e da necessidade do telespectador por entretenimento.

Para esse público, o que importa é apenas a ação na pista, comprimida naquela quantidade de tempo, inserido dentro de uma grade de televisão imutável.

É para esse público que a FOM tenta formatar o esporte, usando como ferramenta a FIA, entidade que o gerencia, para injetar via regulamento doses maciças de entretenimento em suas veias.

Portanto, há um claro embate entre a integridade histórica da F1 como esporte, valorizada pelos fãs “hard-cores”, e sua viabilidade econômica, provida pelo público médio da televisão, fornecedor dos gordos pontos de audiência ao redor do mundo.

Nem sempre o desejo desses dois públicos é conflitante. De fato, na maioria das vezes, suas aspirações quanto à direção do esporte são convergentes. Às vezes, FIA e FOM tendem a subestimar a mentalidade do telespectador médio e a insultar a inteligência do educado entusiasta do esporte, tomando decisões unilaterais sem sustentação de dados reais provenientes de pesquisas.

A missão de FIA e FOM, então, é encontrar o equilíbrio que torne a F1 novamente um esporte íntegro, com regras claras e simples. Que mantenha, ao mesmo tempo, vivo o DNA histórico do esporte e lhe ofereça rentabilidade econômica na mesma proporção.

Será que Max Mosley e Bernie Ecclestone estão preparados para tal missão?

A FOTA pode ser a resposta

A FOTA, entidade representativa das equipes, parece ter a chave para manter tal equilíbrio. No início desse ano, a entidade liderada por Luca di Montezemolo fez razoáveis sugestões para uma reformulação da categoria que mantivesse sua identidade e também viabilidade econômica. O mais importante é que a FOTA baseou suas sugestões para a FIA em uma ampla pesquisa global de mercado feita em 17 países, indagando e sugerindo soluções ao próprio fã da categoria.

A Formula 1 é o esporte mais complexo que existe, que converge ao mesmo tempo a mais alta tecnologia e o elemento humano em um mesmo universo competitivo. Para mantê-lo vivo e saudável é preciso ter essa mesma perspectiva: tecnológica, humana e histórica.

Discussão

12 comentários sobre “A Formula 1 e os seus públicos

  1. Ótimo artigo Becken!

    Também acho que a FOTA é a entidade que pode conduzir a categoria com mais sucesso. Resta saber se FIA e FOM aceitarão uma divisão de poder ou tentarão impor suas decisões, como tentaram no caso da mudança do sistema de pontuação.

    Nada está garantido, afinal a FIA disse que a mudança ocorrerá para o campeonato de 2010. Vamos torcer para a FOTA conseguir barrar de vez essa proposta.

    Publicado por Flavio | 08/04/2009, 8:20 pm
  2. Becken – Cuidado com esse tipo de post, que de tão completo não há nem o que comentar, depois a sessão de comments fica vazia e você não sabe porque… hahahaha

    Grande artigo…

    Publicado por Thiago | 08/04/2009, 9:18 pm
  3. Como diz um conhecido, “boa engenheiro”.

    Se ficamos com a menor parcela do bolo então somos os cunhados da noiva. Ela nunca gosta mas atura por causa do maridão.

    Becken, vou fazer uma cobrança publica ao Sr.

    O Sr. está devendo uma matéria sobre o Tazio e o GP, desde o inicio da pré-temporada.
    No ultimo mês os dois colocaram matérias sobre a quantidade de acesso que eles tiveram no periodo.

    KKKK, eu sou um cara chato que não tem o que fazer.

    Publicado por Claudemir Freire | 08/04/2009, 9:29 pm
  4. Grande artigo Becken!

    Engraçado que, ao menos no meu caso, essa convergência entre espectador médio, e “hard-core”(no meu caso “soft-core” que ainda tenho muito a aprender) se deu de forma tão natural que nem percebi direito.

    Quando assustei, já estava planejando meus fim-de-semana; em os com corrida, e os Sem corrida.

    Comecei a madrugar às sextas para acompanhar o primeiro treino livre.

    Comecei a planejar às minhas sexta-feiras “com corrida” para não ter compromisso no fim da manhã para acompanhar os tempos da segunda seção.

    Planejar qualquer programa de sábado, para antes ou depois da classificação.

    Ligar um verdadeiro aparato na sala de TV aos domingos, Vídeo da Globo+Audio da CBN+Tempos na F1.com+Comentários ao vivo no Capelli.

    Comecei a esmiuçar a internet 2 minutos após a corrida em busca de informações.

    Ffigueiredo

    Publicado por Ffigueiredo | 09/04/2009, 8:39 am
  5. Penso que a resposta talvez seja colocar pilotos no comando da entidade e da categoria.
    Diferentemente do Futebol onde os jogadores são verdadeiras antas, acho que na F1 daria certo.

    Publicado por Ron Groo | 09/04/2009, 12:06 pm
  6. Claudemir Freire: Vc tem razão sobre o Tazio e o GP. Na próxima “folga” entre GPS, tentarei postar algo a respeito. Para adintar, o GP ficou muito bom com a b=nova reforma, eles capricharam!

    Fernando: Vc é um entusistas só pelo fato de comentar em blogs. No fundo, vc mesmo gera conteúdo, em pequena escala, mas gera, o que lhe dá o status de elite, aquela parcela do público de F1 a quem o Bernie e o Max detestam: os que têm opinião!

    Abraços!

    Publicado por Becken Lima | 09/04/2009, 1:38 pm
  7. Eu já nem lembro de quando comecei a abrir não de compromissos sociais de finais de semana, como churrascos, encontro com os amigos etc., por conta da Fórmula-1. E não me arrependo nem um pouco. É o único esporte que acompanho, é meu hobby, então, as pessoas têm de respeitar isso, pois em época de Copa do Mundo são capazes de loucuras ainda maiores.

    Eu digo em alto e bom som: faço parte da elite, sim, que não só acompanha as corridas mas devora o que há de melhor em termos de informação, consumindo o noticiário do dia-a-dia em sites e blogs, comprando revistas, documentários, trocando fitas ou DVDs com corridas antigas, e por aí vai.

    Infelizmente, sei que não é em mim que a FIA e a FOM pensam na hora de fazer suas estripulias com a categoria máxima do automobilismo mundial, e penso o mesmo em relação aos veículos especializados aqui no Brasil. Tudo é feito de modo que leve o leitor a embarcar no oba-oba ufanista capitaneado pela Globo. E não tenho nenhuma esperança de que isso vá mudar um dia. Uma pena.

    Publicado por Alexandre Carvalho | 09/04/2009, 4:56 pm
  8. Becken e amigos,

    Ninguém nasce entusiasta de F1, mas sim, torna-se um.

    Nos tornamos entusiastas, na medida em que criamos um QG na sala de casa, acampando em frente aos meios de comunicação desde a primeira sessão de treinos livres até a bandeirada final, senão mais.

    Quando temos que administrar uma certa impaciência entre os finais de semana sem corrida. Quando buscamos fundamentos para dados técnicos, regulamentos, estatísticas, história, uma notícia lançada que afeta um piloto ou equipe que mais gostamos, mesmo não sendo necessariamente engenheiros, físicos, projetistas ou pilotos profissionais.

    Somos apaixonados por carros, suas linhas, cheiro de gasolina do posto quando abastecemos. Vamos a kartódromos, jogamos F1 no videogame. Temos um wallpaper no celular.

    Nossa paixão nos dias atuais, descarrega sua potência máxima, já que encontra um sem fim de fontes e informações.

    A FIA/FOM parece não dar muita bola para isso. Parece não se importar com esse tipo de público.

    O que não sabem, é que muitos entusiastas estão surgindo todos os dias, e essa evolução de telespectadores eles não podem controlar.

    Assim como a FIA/FOA aposta nos seus telespectadores, a FOTA é a esperança dos entusiastas.

    Publicado por Iomau | 09/04/2009, 6:05 pm
  9. Iomau – vc levantou um ponto interessnate aqui, que é em que ponto o “telespectador” neófito torna-se o entusiasta com cultura de automobilismo.

    Certamente, e obviamente, a televisão contribui para isso mas há um momento em que esse sujeito, informando-se e estudando a fundo o esporte, começa a entender toda a mecânica da F1, as forças dominantes, a sua história, as instituições sobre a qual o esporte se sustenta, a politca, os personagens da mídia e por aí vai.

    Mas eu acho que o contingente de convertidos é muito pouco, no Brasil, segundo uma pesquisa de mercado, o número de entusiastas chega apenas a 100.000 pessoas, o que é bem pouco em um universo de 14.800 milhões de telespectadores por corrida.

    Publicado por Becken Lima | 09/04/2009, 6:43 pm
  10. “O que não sabem, é que muitos entusiastas estão surgindo todos os dias, e essa evolução de telespectadores eles não podem controlar.”

    Há controvérsias. Na nova geração, muitos podem até se considerar entusiastas, mas não dão a mínima para conhecer e estudar a fundo a história da categoria em seus quase 60 anos, muito menos reviver momentos do passado que permanecem até hoje na memória dos mais aficionados.

    Ontem mesmo, por exemplo, eu conversei com um que disse com todas as letras que não tem a menor paciência para assistir uma corrida antiga, mesmo que ele nunca tenha visto, nem que seja para saber o que realmente aconteceu naquele momento. Prefere se ater apenas aos livros.

    Chocante? Pode ser. Mas vindo da nova geração, eu não me espanto nem um pouco. O que me espantou foi o número apresentado aqui pelo Becken, de 100 mil entusiastas como nós. É um número baixo perto do universo de todos os que acompanham as corridas no Brasil, mas suficiente para fazer algum barulho que possa, de alguma forma, fazer a turma da Globo parar para pensar. Onde estão essas pessoas?

    Publicado por Alexandre Carvalho | 09/04/2009, 6:56 pm
  11. Cara, não se preocupe. O Motorizado está de portas abertas para todos, quando quiserem entrar! Neste fds estou me dedicando mais a um especial da MotoGP. Abração!

    Publicado por Ylan Marcel | 10/04/2009, 11:17 pm
  12. Muito perfeito…estou fazendo um trabalho sobre a mídia na F1 e esse post ajudou bastante!!

    Publicado por Randy Duarte | 17/11/2014, 7:56 pm

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