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Relembrando Ayrton

(IMAGEM: The Cahier Archive)senna1

A palavra chave nos sites de busca que tem trazido pessoas até o F1 Around hoje é “Senna”, o que é uma maneira delicada e sensível de a própria internet me obrigar a escrever sobre o aniversário de 15 anos da morte de Ayrton, o maior ídolo que o automobilismo brasileiro produziu em toda a sua história.

Não há muito o que se escrever sobre Ayrton sem que se caia nos clichês mais recorrentes sobre ele, tudo talvez já tenha sido dito e ponderado. Mas nos últimos dois anos a memória de Senna parece ter sido resgatada. Ele nunca pareceu tão presente entre nós e isso se deve, claro, a adoração de Lewis Hamilton pelo brasileiro.

Lewis tem muito do apelo de “entertainer” de Ayrton, uma fina habilidade sob o volante que explode em uma pilotagem ao mesmo tempo agressiva e espetacular. Lewis, no entanto, está longe de ter a mesma intensidade emocional que fluía de Ayrton, estando ele em pista ou não. Ele era um homem que parecia ter nascido apenas para pilotar um carro de Formula 1, nada mais. Sua trágica morte parece dar sentido a esse destino…

Mas muito mais do que a habilidade natural para pilotar um carro de Formula 1, Senna foi dos poucos homens na categoria a usar do seu prestígio, conquistado em pista, para corajosamente lutar e criticar o sistema político e “status quo” da categoria. Senna enfrentou tanto Jean Marie Balestre quanto Max Mosley e pagou sonoramente por isso…

Alguns podem ter melhores números que Senna na história da Formula 1, mas ao contrário de Ayrton, preferiram esconder-se por trás da indulgência e do comodismo que é o silêncio. O esporte nada deve a eles, muito pelo contrário.

Ayrton jamais se furtou a dizer o que pensava e essa coragem de expressar a sua verdade, além da rara habilidade de tornar uma corrida de Formula 1 uma experiência única, sempre lhe destinará um lugar entre os grandes.

Discussão

5 comentários sobre “Relembrando Ayrton

  1. Becken,
    É interessante que cada post sobre Senna traz elementos que vão se somando.

    Muito bem colocados Lewis e Balestre neste retrato. O estilo do garoto nos remete diretamente a Ayrton.

    Becken, já que você citou Balestre:
    Briefing dos pilotos antes do GP da Alemanha de 1991:

    1abraço

    Publicado por Henry | 01/05/2009, 4:32 pm
  2. Há alguns anos, eu olhava para a morte de Senna como algo incurável, talvez a maior perda da história da Fórmula-1. Hoje consigo vê-la com mais sobriedade, sobretudo dentro da ótica que a maioria dos garotos de 14 ou 15 anos devem olhá-la: um gênio que eles não viram ao vivo.

    Pois é. Sou fã de Gilles Villeneuve e nasci após sua morte, assim como também sou fã de Jim Clark. Pra uma pessoa que leva a Fórmula-1 a sério e quer entendê-la, é impossível não recorrer aos nomes míticos da história da categoria para saber como ela foi construída, quais nomes lhe deram fama mundial, quem foram os heróis e os mártires, quais foram os gênios, o que faziam os gênios, como morreram os gênios.

    Ayrton Senna foi um desses caras. Foi um Gilles Villeneuve, foi um Jim Clark, com uma diferença substancial: além de construir com perícia a imagem vigorosa do herói indestrutível (embora fosse tímido e tivesse fala pausada), elevou não só o status como também o padrão da Fórmula-1. Na primeira oportunidade que teve (1988), bateu o recorde mundial de poles e vitórias em uma única temporada, além da corrida épica que coroou seu primeiro título. Saiu de cena com 10 vitórias e 40 GP’s a menos que Alain Prost, o maior vencedor de sua época. Guiou um carro imbatível apenas em duas temporadas, e ainda assim gerou a marca quase inacreditável de 65 poles – algo que Schumacher, que teve carros imbatíveis em pelo menos quatro temporadas com 17 ou 18 provas por ano, só conseguiu superar no último de seus 15 anos na categoria – o único ano em que enfrentou um rival à altura de seu talento, Fernando Alonso.

    Como desfecho, morreu ao vivo em uma Fórmula-1 que vivia na época o seu auge de mídia, sendo vista irrepreensivelmente nos quatro cantos do planeta.

    O tempo acaba deixando cair no esquecimento os feitos que ficaram na retina de quem os viu, infelizmente. É por isso que, para os garotos que daqui 10 anos terão 22 ou 23 anos, Senna terá a importância que hoje têm Villeneuve, Clark e Peterson para mim.

    A diferença é que eu vi Senna ao vivo. E serei eternamente grato por isso.

    Publicado por Hugo Becker | 01/05/2009, 4:44 pm
  3. Ayrton Senna era uma força da natureza.

    Acompanhei toda a carreira dele, desde a globo transmitindo ao vivo uma corrida da F3 inglesa (sim isso aconteceu um dia !) até o momento que foi sepultado em São Paulo.

    Mais nunca torci por Senna.

    Talvez o fato de ter acompanhdo tudo aquilo sem nunca te-lo vito como ídolo, me dê condições de avaliar o homem e o piloto de uma forma desapaixonada.

    Nunca torci por Ayrton.

    Aquela primeira volta perfeita em 93, a primeira vitória em 85, a disputa com Mansel em 86 na espanha, a vitória no Japão em 93, a corrida perdida para Piquet na Itália em 87, as disputas com Prost no Japão em 88, 89 e 90.

    Vi tudo aquilo sem paixão, mais com uma profunda admiração.

    Nunca vi, nem imagino que um dia venha ver, alguém tão intenso na pista, e principalmene fora dela. Uma pessoa que nasceu para pilotar e atingir a perfeição pilotando.
    Um homem que não teve filhos, que parecia nunca relaxar, que era egoísta e egocêntrico, que usava seu charme e carisma para atingir seus objetivos, mais que na pista era intenso e inteiro. Capaz de qualquer sacrifício pela volta voadora, pela bandeira quadriculada.

    Alguém que em vida ainda entendeu a dimensão de sua influência sobre toda uma nação, e assumiu esse fardo de ser um exemplo infalível.

    Entretanto o que mais me recorda em Senna, 15 anos depois de tudo, foi um treino em Sam Marino em 93.

    Naquela época treinava-se 60 minutos e o mais rápido saía na pole. Caso seu carro quebrasse ou saísse da pista, o piloto não podia usar o carro reserva, mais poderia usar o carro do companheiro de equipe, depois que ele acabasse seu treino.

    Senna saiu para sua primeira volta rápida, errou, e ficou com o carro preso na brita. Sem tempo, voltou para o boxe e esperou Michael Andreti treinar.

    Faltando 10 minutos para acabar a seção, sem tempo ainda, ele senta no carro de Andreti. Ajusta o banco e os pedais no que é possível, troca-se o número no bico do carro e o sensor de cronometragem, e ele sai para tentar fazer um tempo para largar no meio do pelotão.

    Nesse dia, não com um carro igual ao do companheiro de equipe, mais com O CARRO do companheiro de equipe, ele anda “2 segundos” mais rápido que o americano (campeão da Indy e lone de ser um bobo). Vou repetir : com o carro do cara, regulado para o cara, que tinha acabado de passar 50 minutos treinando, ele roda DOIS SEGUNDOS mais rápido.

    Senna era uma força da natureza.

    Eu vi essa força da netureza em ação.

    Publicado por Sirlan Pedrosa | 01/05/2009, 8:09 pm
  4. Uau, Sirlan… Comentário magnífico, algo que eu jamais poderia chamar de clichê. Parabéns! ;)

    Escrita maravilhosa também!

    Abraçõs!

    Publicado por Becken Lima | 02/05/2009, 9:36 am
  5. Nesses 15 anos de “vacas magras” (mesmo? o futuro parece ser mais sombrio…), fica a sensação de como foi inusitado o fato de termos tido três campeões mundiais na F1 e uma extensa lista de pilotos participantes em competições de alto nível (além da F1, Indy, WTCC e muitas outras). Isso tudo em um país em que o automobilismo nunca foi um esporte de grande destaque. Duvidam? Como explicar a penúria das categorias existentes no Brasil? Me corrijam se eu estiver errado, mas atualmente só existe duas categorias de sucesso no Brasil: a Truck e a Stock.

    Na verdade não gosto de nenhuma das duas: a Truck acho uma bizarrice, aqueles monstrengos disputando posições numa pista… bom, mas é questão de gosto. O que há de se reconhecer é a organização da categoria: participação das montadoras, promoção do evento, cobertura… eles dão um show em relação às demais.

    Já a Stock… não consigo engolir. Carros toscos, regulamento tosco (play-offs??? PLAY-OFFS???), alguns pilotos de qualidade que, também por força do regulamento e dos carros, tem sua qualidade nivelada aos braços duros… não, não dá. Fora o fato de ter (até o ano passado) apoio expressivo da Globo, e ainda assim estar longe de ser o sucesso que poderia ser. Bom, também é questão de gosto. E, apesar de tudo, ainda é junto da Truck uma das últimas categoria que resistem com sucesso no Brasil.

    Diante de tudo isso, olhamos para o passado quase incrédulos e concluímos: foi muita, mas MUITA sorte.

    Publicado por Vitor, o de Recife | 02/05/2009, 12:15 pm

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