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KERS: o fracasso do ano

retrospectiva 2009 - KERS

Sirlan Pedrosa tem contribuido regularmente aqui no F1 Around na sessão de comentários e estréia hoje como blogueiro convidado na retrospectiva de 2009. Articulado e inteligentíssimo, Sirlan tem dado regularmente o seu pitaco em questões técnicas e foi daí que surgiu a idéia de pedir um post retrospectiva sobre o KERS.

Aproveitem: Sirlan tem um raro talento para traduzir temas técnicos em conceitos fáceis e palatáveis, algo raro que jornalistas profissionais às vezes fracassam. Dito isso, boa leitura! — Becken —Já dizia Lavoisier: “Nada se cria, tudo se transforma.” Aproveitar a energia desperdiçada nas frenagens para gerar mais potência a ser usada quando necessário: Uma grande idéia!

Num mundo buscando redescobrir sua matriz energética e focando na sustentabilidade, a F1 apostou no KERS. Nada muito original, afinal vários carros conceitos apresentados nos últimos anos usam o sistema. O próprio Toyota Prius, de produção em série, tem o seu KERS.

Entretanto, como aconteceu com o freio a disco, motores turbo, câmbio semi-automático, suspensão ativa e outras tecnologias, a F1 levaria o desenvolvimento do conceito a patamares muito elevados em pouco tempo. É certo que em alguns anos o sistema terá a metade de seu peso, talvez quatro ou cinco vezes sua eficiência e as baterias (calcanhar de Aquiles dos carros elétricos) passarão por uma assustadora revolução. No final, tudo aquilo será paulatinamente transferido para o nosso dia a dia.

O Línea no Brasil, por exemplo, carro da Fiat proprietária da Ferrari : Tem uma versão com motor turbo, cambio semi-automático, freios a disco, grande eletrônica embarcada…

Mais no caminho do KERS havia uma crise mundial sem precedentes. Pega de surpresa e fortemente pressionada pelas equipes devido ao seu alto custo de desenvolvimento, a FIA tornou a adoção do sistema opcional. Foi o começo do fim.

O difusor duplo revolucionário, criado em uma fresta do regulamento, obrigou sete das dez equipes a praticamente refazer todos os seus projetos, sugando recursos já escassos num momento de forte pressão econômica.

Não precisou muito tempo para ficar claro também que o sistema causava grandes perdas de equilíbrio dinâmico geradas pela impossibilidade do uso dos lastros como agentes de acerto dos carros. Os pilotos mais altos e pesados também ficaram prejudicados, ao ponto de uma mesma equipe (BMW) utilizar o equipamento apenas no carro de seu piloto mais leve.

O banimento dos testes ao longo da temporada ajudou a dificultar ainda mais as coisas para uma tecnologia que precisava tanto de desenvolvimento na pista.

O que condenou o KERS foi o fato de que o automobilismo não desenvolve tecnologia como os laboratórios de pesquisa das fábricas e universidades. Na pista a prioridade é andar mais rápido e vencer. E nesse ano andou mais rápido quem teve o melhor assoalho e difusor duplo integrado. O KERS adotado pela equipe BMW com grande entusiasmo e investimento, teve na equipe suíça/alemã a primeira a descartá-lo. Depois a Renault também o abandonou. Williams, Red Bull, Toro Rosso, Force Índia e Toyota jamais o utilizaram. A Campeã Brawn sequer jamais cogitou o seu uso. Apenas a Ferrari e a McLaren, não por acaso os times de maior estrutura e orçamento, insistiram no seu desenvolvimento.

No meio do ano o KERS havia perdido sua batalha. As equipes resolveram então tornar o sistema uma espécie de “Rainha de Inglaterra”: Está no regulamento, mas por acordo de cavalheiros ninguém utilizará.

Depois de ter seu destino traçado o KERS começou a dar frutos e ajudou as equipes que insistiram no seu uso e desenvolvimento a salvar-se de um ano desastroso. A McLaren entrou para história como a primeira vencedora usando o sistema de reaproveitamento de energia das frenagens. A Ferrari deve sua vitória na Bélgica ao KERS, sem o qual dificilmente Kimi teria conseguido resistir à surpreendente Force Índia de Fisichella.

Fechando uma temporada que colocou a F1 de cabeça para baixo, a McLaren de Lewis Hamilton dominou a classificação e fez a pole position mais folgada do ano contando, Ironicamente, com uma grande vantagem: O KERS!

Discussão

14 comentários sobre “KERS: o fracasso do ano

  1. O KERS é, pra mim, a cagada do ano.
    Veio com toda aquela propaganda de “transformar a F1 mais verde”, mas ele não ajuda em nada, nada, o meio ambiente. Ele só polui mais!

    Pois, para que ele seja relevante ecologicamente, ele deveria substituir a combustão da gasolina como fonte de energia, mas ao invés de substituir, ele adiciona à energia gerada pela combustão.

    O Kers da F1 é utilizado quando se sai de uma curva, onde o giro do motor e a velocidade estão baixas. Apertando o botão, aumenta o torque e, consequentemente, a aceleração. O carro nem anda mais rápido (pois é limitado pelo giro máximo de 18k do motor), e sim chega na velocidade final mais rápido…

    Se o Kers fosse um sistema automático, que substituisse a combustão quando o giro do motor estivesse alto, e com uma capacidade muito maior de energia, aí sim seria relevante ecologicamente.

    E não vou nem falar das baterias altamente tóxicas (não reaproveitáveis) que são jogadas em depósitos ao final de cada corrida.

    KERS Elétrico = fail.

    Publicado por Guilherme Teixeira | 04/11/2009, 7:10 am
  2. Olha o Sirlan aê… e mandando bem.
    Parabéns, Sirlan.
    Não fossem as restrições regulamentares da F1 aos testes, o Kers poderia ter dado certo. As provas vencidas ou as performances surpreendentes que aconteceram na temporada, mencionadas no post, foram lampejos que indicam que com tempo para desenvolvimento e liberdade para testes os resultados podem ser muito melhores para o uso na competição quanto em veículos produzidos em série (aqui incluo automóveis, caminhões, metrôs, composições ferroviárias, sem descartar o uso em outras máquinas e equipamentos).
    Abs.

    Publicado por Anselmo Coyote | 04/11/2009, 7:20 am
  3. Faltou referir o verdadeiro custo ambiental de conversão (quando é possível) dessas baterias e respectivos metais componentes. Uma verdade ainda bem escondida ou como diz o outro uma verdade incoveniente. Este problema não se poria tão gravemente na F1 mas sim na sua aplicação generalizada.
    Daí o futuro aponte de facto para a pilha de hidrogénio para o gás de petróleo liquefeito, gás natural e para a energia solar como energias verdadeiramente úteis para o futuro. No Biodiesel já se recuou, sabendo-se o impacto negativo que teria essa exploração à escala mundial face à emergência da fome no mundo e a um futuro muito incerto quanto ao clima e sua devastadora acção sobre as colheitas e ciclos biológicos.

    Publicado por Ernesto Sousa | 04/11/2009, 7:43 am
  4. Pena q não deu certo. O desenvolvimento na F1 poderia encurtar o tempo para a aplicação dessa tecnologia em outras categorias de carros de passeio ( médios/populares ) e não deixar restrito a alguns carros de luxo.

    Ou quem tem/teve um 1.0 com ar-condicionado, bem q suplicou por um botãozinho do KERS no painel e outras aplicações possíveis…

    Publicado por Alex-Ctba | 04/11/2009, 8:38 am
  5. Becken, Alex e amigos,

    Acho que todos os comentários até aqui estão corretos em si mesmos. Não se defendem agressões ao meio ambiente o que, devidamente traduzido, seria: a nós mesmos. Mas a ciência não dá saltos. Quanto tempo decorreu entre a primeira fogueira feita pelo homem pré-histórico a uma usina nuclear, ambas para gerar luz e calor?

    O Kers não poderia alimentar um motor elétrico que entraria em funcionamento, paralisando temporariamente o motor a combustão interna, como propôs o Guilherme? Claro. Mas, como alcançar esse estágio (ou outro melhor ou muito melhor) sem dinheiro, sem testes?

    Porque na F1 não se usa etanol ou metanol.

    Porque o sol está ardendo em chamas há bilhões de anos sem poluir e sem dar sinais de que esgotamento da energia? Energia nuclear. Mas é preciso muito estudo, muitos testes, muito tempo e muito dinheiro.

    Abs.

    Publicado por Anselmo Coyote | 04/11/2009, 8:53 am
  6. Correto Coyote, e a F1 sempre foi o laboratório para introdução dessas novas tecnologias. Uma das coisas q torna esse esporte fascinante é o aspecto tecnologico e isso não pode acabar, mesmo com todos querendo redução de custos e menor diferença entre as equipes grandes e pequenas.

    A equação é realmente complicada, assim como o Coyote conciliou os poucos comentários aqui, prós e contras, cabe ao Todt achar uma solução para q a F1 não perca essa característica inovadora.

    Publicado por Alex-Ctba | 04/11/2009, 9:12 am
  7. Sirlan,

    absolutamente incrível! Você tem um talento natural, algo muito raro nos dias de hoje…

    Já alguma vez pensou em criar o seu próprio blogue?

    Enfim, parabéns pelo texto e tenho de confessar que sou dos poucos que tem pena de o KERS estar de saída.

    Publicado por voaridase | 04/11/2009, 12:40 pm
  8. O problema do KERS foi não ter sido obrigatório, se era para deixar opcional, a vantagem dele deveria ser maior, talvez o tempo de uso triplicado, o que iria obrigar a quem não tem desenvolver, já pensou um piloto poder usar o KERS por uns 10s por volta, todos iriam querer.

    Publicado por Rodrigo Pedrosa | 04/11/2009, 12:57 pm
  9. Sirlan –>

    Meus parabens, irretocavel seu texto… Por favor nao crie seu blog nao, e continue escrevendo aqui conosco para contribuir no enriquecimento do blog :-)

    Guilherme Teixeira –> Esse pedaço nao é bem exato

    ” O carro nem anda mais rápido (pois é limitado pelo giro máximo de 18k do motor), e sim chega na velocidade final mais rápido…”

    A limitação realmente nao muda, mas tem um detalhe com o acrescimo de potencia o motor “enche” mais rapido e ninguem vai ficar com pedaço de reta limitado a 18k, entao eles tem duas alternativas a fazer:

    1o Diminuir a engrenagem da 7 marcha (claro que isso vai envolver um novo escalonamento do cambio). Com isso aumenta a velocidade final da reta, caso o kers seja utilizado na saida de curva que antecede a reta.

    2o Aumenta-se a pressao aerodinamica do carro tendo em vista que terá uma potencia extra para empurrar na entrada da reta e atingira o mesmo giro. Nesse caso nao aumenta a velocidade final isoladamente, porem melhora a velocidade media do carro.

    ————- xxxxxxxxxxxxxxxxxxx ——————- xxxxxxxxxxxxxxxx ————–

    Para mim o grande diferencial do F1 Around se deve a dois motivos.

    1: As materias que o Becken acha, ou melhor cria ne, sai da obvio e realmente faz jornalismo. Alias acho que é o unico site de formula 1 brasileiro que faz jornalismo, o resto todo é copy cola e um mal translate dos sites gringos ou retrospectivas e estatisticas (que tb gosto).

    2. Os comentaristas, tem pessoas aqui com um diferencial incrivel em relacao aos outros blogs, pessoas com ponto de vista opostos ao extremo, mas que na hora da argumentação dao um show. Quantas vezes acompanhando aqui os debates ja nao mudei de opiniao lendo os argumentos do pessoal.

    Publicado por Claudio CArdoso | 04/11/2009, 1:42 pm
  10. Parabéns Sirlan.

    Kers, uhmmm.

    Já começou morto, respirou com a Mclaren e morreu com a Williams sua última defensora, assim como a Toyota já vai tarde.

    Sobre questões ambientais e uso de novas tecnologias para combustíveis é muito inocência achar que a F1 está preocupada com isso. Sempre houve interesses comercias atrás de uma simples decisão, então o Kers serviu a algum propósito financeiro para algum grupo, pode ter sido um fracasso nas pistas, mas pode ter dado o start para que alguém desenvolva novas tecnologias baseadas no que foi usado na F1, não só carros de rua hibridos, muito mais coisas podem vir.

    Fala-se tanto que o petróleo deixará de ser a fonte de energia principal do mundo e que as petroleiras estão fadadas a falência se não mudarem seu foco, e a que a energia elétrica irá substituir boa parte do que hoje é petróleo, e esquecem que esses conglomerados de energia já estão nas mãos de petroleiras.

    Então, conciência ambiental temos nós, grupos empresárias tem lucros com a destruição do meio ambiente e a F1 é mais uma ferramenta para novas formas de desenvolvimento dessas tecnologias.

    Publicado por Claudemir Freire | 04/11/2009, 2:09 pm
  11. Sirlan,

    Esse tal KERS foi um dinheiro enorme jogado pelo ralo,no inicio da temporada quase todos os times queriam abolir,a exceção foi a BMW que não arredou pé e melou tudo,acabou entrando pelo cano,pensou que estava na frente e quando viu tinha ficado pra trás.

    abraço

    Publicado por marcelonso | 04/11/2009, 8:57 pm
  12. Ótimo post e ótimo comentario do Claudio CArdoso.

    Publicado por Rodrigo Kezen Leite | 04/11/2009, 10:57 pm
  13. Agradeço a todos pela força e elogios…embora eu saiba que deva existir um certo sentimento de corporativismo nesses elogios….risos.

    Sim….e para aqueles que perceberam….o Rodrigo Pedrosa que comentou aqui…é meu irmão…leitor deste blog e também apaixonado por corridas como todos nós.

    Cláudio,

    O local para termos informações precisas sobre os temas atuais da F1 e discurtirmos em alto nível e com total liberdade e democracia sobre nossa paixão pelo automobilismo é aqui no F1Around. Faço minhas todas as suas palavras sobre este blog.

    Publicado por Sirlan Pedrosa | 05/11/2009, 5:43 am
  14. Ahhhh!!!!
    Tô entendendo. Então o Rodrigo Pedrosa é irmão do Sirlan Pedrosa… Well, então tenho que tomar mais cuidado na hora dos “arranca-rabos” com o nobre (hehehe) comentarista. Afinal, se vivo apanhando de um… de dois então, vou ser rebaixado de Coyote sagaz e sanguinário a cachorrinho de madame.
    Abs.

    Publicado por Anselmo Coyote | 05/11/2009, 10:44 am

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