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POLÍTICA NA F1

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Em cartaz…

CHARGE: Jim Bamber/Autosporbambermax

Círculos históricos e a Formula 1

(Imagem: Sidepodcast.com via Flickr) place de concorde placa(PLACE DE LA CONCORDE: Max deveria observar a história e entender até onde a sua própria redenção pode arruinar a Formula 1)

Clique AQUI e leia como a repetição de fatos históricos podem delinear um curso para a história da Formula 1.

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A Formula 1 seria a mesma sem a Ferrari?

Os fãs da Ferrari devem estar, nesse momento, ultrajados e sentido na pele o sabor amargo da verve ferina do presidente da FIA, Max Mosley. Max está levando a sua agenda orçamentária para a F1 às últimas conseqüências e sugeriu, candidamente, que se a Ferrari não concordar com os termos presentes em seu regulamento e deixar a categoria, a Formula 1 sobreviverá.

O super jornalista de F1, Joe Saward, tem a melhor síntese da importância da equipe para a F1 e da relação simbiótica que existe entre a Ferrari e a categoria através desses 60 anos de história:

“A FIA sabe que a Ferrari é uma marca muito mais poderosa que a F1. O Cavalo Rampante é muito mais evocativo que a pedestre logomarca da F1. A Ferrari é de longe a mais popular equipe na F1.

A McLaren atrai fãs com a sua ostentação tecnológica, a Williams consegue apoio por causa da paixão de seus donos, a Minardi foi popular por causa do seu status de azarão, mas a única equipe que leva os fãs à loucura é a Ferrari — e não importa quem esteja pilotando. Não são apenas os italianos de sangue rosso que seguem a Ferrari. O sentimento é o mesmo ao redor do mundo. Por quê? Porque a Ferrari tem uma grande herança em competições. Ela é uma equipe legendária.

[O valor da] marca Ferrari não baseia-se apenas no fato de que gente rica compra os seus carros — embora isso seja verdade para muitas companhias — mas no fato de que há uma mística sobre a Ferrari da qual as pessoas querem fazer parte. A Ferrari vem a muito tempo representado o orgulho e o estilo italiano, com os carros vermelhos sendo o símbolo do que os italianos fazem de melhor.

Mas a F1 é um elemento chave na marca Ferrari. E a Ferrari é um elemento chave na marca F1”.

Joe Saward no Grand Pix

Eu, particularmente, não compreendo nem nunca tive tal fascinação pela Ferrari a ponto de “desejar fazer parte de sua mística”, mas jamais seria estúpido de negar a importância da equipe e do valor de sua marca e herança competitiva para o universo da Formula 1.

Além da importância comercialmente estratégica, há outro forte elemento que a Ferrari invoca com a sua presença e que é de extrema importância para a F1: que é uma certa intensidade dramática em sua natureza e que ela empresta de forma natural à categoria — e isso é algo inestimável.

Mesmo em épocas não tão vitoriosas quando era motivo de piada pelo paddock, a Ferrari reteve parte desse seu prestígio e herança, mantendo-se como um dos atores principais no teatro da F1. Equipes nasceram, se estabeleceram e se foram, mas a Ferrari permaneceu impávida, representado ela mesma um dos patrimônios históricos da própria F1.

No fim de mais esse imbróglio político, todos nós sabemos que haverá uma acomodação de interesses, pois foi assim na década de 80, quando a Ferrari ameaçou abandonar a F1 pela primeira vez e ir de mala e cuia para a Formula Indy.

Sim, a Formula 1 fatalmente sobreviveria sem a Ferrari, mas perderia parte de seu encanto e graça.

FIA e Ferrari prenunciam mais uma batalha política

(IMAGEM: Ferrari/Divulgaçãoluca1(LUCA: A Ferrari está infeliz com o teto orçamentário da FIA e quando a Ferrari está infeliz…)

A recente troca de correspondências entre dois dos mais poderosos homens da F1 é um ensaio do imbróglio político que a F1 está prestes a assitir nos próximos meses. Luca di Montezemolo alertou a Max Mosley que o recente escopo de regras impostas arbitrariamente pela FIA, que divide a categoria em duas séries, pode ser tecnicamente impraticável, prejudicar a reputação do esporte e confundir a percepção da audiência ao redor do mundo.

A resposta de Max foi ao seu melhor estilo, beligerante e sibilina, relembrando que a F1, como extensão da hoje “inadimplente” indústria automobilística, corre sério risco de entrar em colapso se não acatar esse teto orçamentário imposto pela FIA.

Se olhadas nos detalhes, as regras são uma dura imposição da FIA para obrigar todas as equipes, pertencentes às grandes fábricas ou não, a afiliarem-se ao seu novo regulamento. O orçamento de 59 milhões de dólares seria o suficiente para construir um carro competitivo e a adição de mais alguns bônus (motor sem limitação de giros e a liberdade de inovação aerodinâmica) um ponto final que não deixaria muita escolha para as equipes a não ser juntarem-se a essa F1 formatada por Mosley.

Esse novo embate não é apenas o prelúdio de uma guerra entre as grandes fábricas e a FIA, mas também outra séria ameaça à unidade da Associação das Equipes de Formula 1, a FOTA e põe em rota de colisão os interesses das grandes fábricas e das equipes independentes.

Force India, Willimas, Red Bull, Brawn GP e Toro Rosso, dão boas vindas ao teto orçamentário, o que lhes dará teoricamente a chance de competir de igual para igual com as grandes fábricas. Se 60 milhões de dólares são capazes de financiar uma equipe competitiva, como as equipes pertencentes as grande fábricas justificarão seus orçamentos astronômicos para os seus acionistas?

Se acatadas pelas equipes, essas novas regras serão um xeque-mate na gastança na F1.

O problema é que a Ferrari e, consequentemente, as outras fabricantes, não permanecerão de braços cruzados esperando 2010 chegar. Elas necessitam de mais dinheiro para impor o seu poderio econômico e a carta de Montezemolo é na verdade um aviso à FIA. O poder, afinal, no sentido “stricto” da palavra, os motores que empurram toda a Formula 1, inclusive as independentes, são feitos pelas grandes fábricas. Essa história ainda não teve um ponto final…

A FOTA APÓIA MONTEZEMOLO

Como era de se esperar, a FOTA explicitou seu apoio a Luca do Montezemolo através de John Howett, vice-presidente da organização. Segundo Howett, o acordo especial que a Ferrari mantém com a FOM não será “uma questão de disputa entre as equipes.”

O acordo é conhecido e ponto pacífico entre os times de Formula 1. Como eu apontei em posts anteriores, Howett fez questão de assinalar qual a real intenção de Bernie Ecclestone ao expor o acordo:

“Ele está tentando [dividir a FOTA,] mas toda a informação dada [por Bernie] é muito transparente e abertamente dividida entre os membros da FOTA. Então isto foi um pouco sem sentido porque todo mundo está ciente do status histórico da Ferrari.

“Eu acho que a posição da FOTA é que as pessoas sentem que as receitas em um esporte moderno são normalmente distribuídas mais em favor dos participantes do que propriamente em favor dos proprietários dos direitos.”

John Howett faz referência a esportes que têm audiência global, como a NFL ou mesmo a Liga de Futebol Inglesa, em que ambas as próprias federações detém os direitos de suas respectivas marcas e conseqüentemente suas receitas. A divisão de receitas da Formula 1, comparada com a destes outros dois esportes, parece quase feudal, com o CVC Partners levando 50% do total e os outros 50% sendo dividido entre todas as equipes.

Mas nesse jogo de mútuas acusações, qual será o papel de Max Mosley? O Vítor, na sessão de comentários sugere que:

“…Mosley diz não ter decidido ainda o seu futuro, mas com sua saída Bernie vai perder uma marionete confiável.”

Na entrevista de hoje para o Formula1.com, Max desconversou a respeito da recente união entre as equipes. Para Mosley, o maior teste para a união das equipes “será quando houver uma significante diferença de opinião, ou quando interesses vitais [de cada equipe] estiverem em perigo.”

O fato é que diante dos estragos que o escândalo sado masoquista fez na reputação de Max, ele provavelmente está entrincheirado em uma missão pessoal para “salvar” o esporte, apoiando maciçamente a posição das equipes.

O maior motivo para manter Max Mosley na Presidência da FIA e a qual ele mesmo nos fez ficar cientes em uma carta em maio desse ano, seria a sua suposta “habilidade para negociar os direitos da Formula 1.” Um dos trechos da carta toca exatamente na questão a que hoje opõe Montezemolo e Ecclestone:

“Em minha opinião, nós apenas deveríamos assinar um Pacto de Concórdia se reforçarmos a autoridade da FIA e lidarmos propriamente com a grande crise que parece iminente na Formula 1. Custos estão fora de controle, lucros são insuficientes e as grande montadoras estão em dificuldade com os negócios que as sustentam [vendas de carros]. Apenas com arranjos justos e acordos financeiramente bem negociados é que nós evitaremos perder mais equipes.”

Ao vermos o sumiço da Honda no último mês, temos que admitir que há um “quê” de profecia na carta de Max. A verdade, felizmente, é que ele dificilmente será uma marionete nas mãos de Bernie Ecclestone como já foi no passado.

BERNIE TENTA DIVIDIR A FOTA

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É uma satisfação quando um insight, uma argumentação desenvolvida em um dos artigos do F1 Around confirma-se na prática, como aconteceu com o post anterior, “FOTA e FOM: BATALHA À VISTA?”.

O que eu não esperava era que a pequena guerra entre FOM e FOTA, que nesse momento parace ser apenas bravata verbal, eclodisse em tão pouco tempo, em apenas dois dias.

Em sua ácida resposta a Luca di Montezemolo em entrevista no TIMES Bernie jogou na mesa o que basicamente todo o bem informado fã da Formula 1 já sabe há muito tempo: que a Ferrari de Montezemolo leva uma fatia maior que o restante das equipes na divisão dos lucros do negócio Formula 1.

O problema é que Ecclestone, mais uma vez, expõe uma das maiores entraves políticos da categoria, a impressão geral de que a Ferrari, por conta do seu prestígio e apelo de marketing global, é amplamente beneficiada em detrimento do restante das equipes

Um dos trechos da entrevista de Ecclestone dá margem a uma leitura ambígua:

“A única coisa que Montezemolo não mencionou é o dinheiro extra que a Ferrari ganha a mais que todas as outras equipes e TODA AS COISAS EXTRAS QUE A FERRARI TEVE POR MUITOS ANOS.”

O que Ecclestone deseja efetivamente dizer com “TODA AS COISAS EXTRAS QUE A FERRARI TEVE POR MUITOS ANOS”?

Ao longo desse ano eu expressei o meu desgosto particular com as arbitrariedades da FIA em favor da Ferrari e punições contra Lewis Hamilton em forma de quatro artigos:

Portanto, o direcionamento do campeonato em favor da Ferrari por parte da FIA não é tema novo aqui no F1 Around, pelo contrário, a matéria é tema recorrente.

No caso da briga pública entre Ecclestone e Montezemolo há que se enxergar de forma diversa a questão. A estratégia de Bernie Ecclestone não é nova na história política da categoria, e também é bem clara: dividir uma vez mais as equipes, hoje unidas em torno da FOTA, atacando diretamente o seu presidente, Luca di Montezemolo, chairman da Ferrari.

Já para a parcela anti-ferrari de torcedores e fãs da Formula 1, a entrevista de Ecclestone ao TIMES apenas oficializa em cartório o que eles já sabiam: a Ferrari recebeu no passado e recebe hoje auxílio tácito tanto da FIA (político) quanto da FOTA (financeiro).

O bate-boca público também  expõe o pior: que diante de prejuízos, políticos ou financeiros, Max Mosley, Bernie Ecclestone e a Ferrari, aliados históricos, não vacilarão um segundo para entrar em um confronto fratricida, mesmo que para isso toda Formula 1 sofras as conseqüências.

FOTA e FOM: BATALHA À VISTA?

(Foto: wenny118 no flickr)

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ECCLESTONE: na mira de Montezemolo e da FOTA

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A mais recente e ruidosa entrevista do Presidente da FOTA, Luca di Montezemolo, não é apenas uma nota no amontoado de notícias da pré-temporada. A entrevista é uma sutil, mas aguda, ameaça ao poder estabelecido de Bernie Ecclestone e de seus empregadores, o CVC Holdings, detentor de parte dos direitos comerciais da Formula 1.

Em poucas linhas, Montezemolo resume o que pode ser a inviabilidade do esporte como evento em um futuro próximo, apontando as grandes faltas de Ecclestone ao longo dos últimos anos.

50% do total dos proventos parece insuficiente paras as equipes em tempos de crise econômica e a FOTA pressionará por até 80% na divisão final do bolo.

Montezemolo também reflete que não é apenas em termos financeiros que as equipes escudadas pela FOTA deverão estender a sua influência. As equipes devem, também, ditar a maneira como a Formula 1 deve ser percebida pelo público, a logística, o formato e também a promoção das corridas.

Historicamente, Max e Bernie sempre usaram a divisão natural entre as equipes como ferramenta para enfiar goela abaixo decisões unilaterais tanto comerciais quanto regulatórias. O primeiro passo no que parece uma re-união das equipes em torno de seus próprios interesses foi a criação da FOTA. O segundo, e talvez mais importante, foi nomear o presidente da Ferrari, Luca di Montezemolo, como o Presidente e porta voz da entidade. Garantir o prestígio da equipe mais tradicional da Formula 1 na frente de batalha pelos seus interesses, era essencial para a unidade e o fortalecimento da nova entidade.

Ao fim desse ano, vimos que Max tentou impor a padronização de motores à categoria, mas a idéia foi de imediato rechaçada pelas equipes que são propriedade das grandes montadoras. A solução foi um meio termo entre um motor padronizado e de baixo custo e a liberdade de opção entre usá-lo ou não, o que satisfez a Max e também as montadoras.

Muitas das decisões tomadas para se cortar gastos pareceram tímidas, mas foi a solução entre manter o DNA da categoria, desejo das montadoras, e a sua sobrevivência, missão pessoal de Max.

A melhor maneira de se ilustrar o embate entre as duas entidades é ver que Montezemolo sabe o quão é importante para o negócio de quem faz carros uma corrida nos Estados Unidos, o que conflita com a necessidade que tem Ecclestone e seus sócios por lucros imediatos. A corrida em solo americano certamente não será subvencionando pelo governo dos Estados Unidos, como acontece no Brasil e em países do oriente. Lá o grande evento deve ser um negócio auto-sustentável e o lucro em espécie parece sempre minguado aos olhos de Ecclestone e seus sócios.

Há sugestões por parte de cronistas da Formula 1 nesse momento de que o poder da Formula 1 começa a pender para o lado das equipes/FOTA.

O mais importante é que não há nenhum contrato formal que sustente as relações comerciais entre as equipes e o CVC, que detém sob seu poder o nome “Formula 1”.

Ao verificar isso, eu desconfio que o poder sempre esteve nas mãos das equipes e apenas agora, diante de uma crise que ameaça arrastar a todos, é que elas parecem finalmente terem saído da zona de conforto.

 

A FERRARI E O ACORDO ANTI-TABAGISTA

NOTíCIA →

Foto: Cahier Archive

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(GP do BAHREIN in 2007: a Ferrari, sempre ela, fura mais um acordo e se veste de Marlboro)

O Blog do Capelli tem hoje um post interessante relatando que é a primeira vez em 25 anos que uma equipe é campeã sem o patrocínio de uma companhia de cigarros. Apenas a Ferrari ainda permanece sendo patrocinada, subliminarmente, pela Philip Morris, proprietária da marca Marlboro.

Há uma história interessante por trás da associação entre Ferrari e Marlboro.

Em 11 de setembro de 2001 (sim, naquele terrível dia) a British American Tobacco e a Philip Morris assinaram um acordo chamado ITPMS, ou em minha pobre tradução, Padronização das Ações Internacionais de Marketing dos Produtos derivados do Tabaco. Esse acordo estabelecia que a propaganda de cigarros deveria ser banida da Formula 1 no fim de 2006.

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A VOLTA POR CIMA DE RON DENNIS

(FOTO: motorsport.com)ron-dennis

(RON DENNIS e LEWIS HAMIILTON: A aposta que se provou correta)

É um exercício curioso verificar as principais notícias da Formula 1 há pouco mais de um ano atrás. Aparte o campeonato em si, a imagem que surpreendia a todos era a de Ron Dennis chorando, abraçado a sua mulher após a vitória de Fernando Alonso no GP da Itália. A expiação pública de um emocional Ron Dennis justificava-se: sua equipe houvera sido declarada culpada no caso de espionagem envolvendo a Ferrari e deveria pagar uma multa monstro de US$ 100 milhões; ela perdera todos os pontos do mundial de construtores; e enfrentara a séria ameaça de exclusão do campeonato.

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A FIA MENTE PUBLICAMENTE

Após Lewis Hamilton tomar o seu vôo de Paris para Cingapura ontem, uma história emergiu da pequena batalha legal travada na Corte de Apelo da FIA na Place de la Concorde. A história ilustra bem o caráter dos membros da FIA e até onde eles podem chegar para fazer valer os seus interesses.

Primeiro, é preciso esclarecer qual o procedimento no julgamento do apelo feito pela McLaren ontem.

Há uma regra específica no regulamento do campeonato que proíbe que um apelo à corte da entidade seja feito se o objeto desse apelo for um “Drive Trough”, a penalização que impõe ao piloto a obrigação em passar pelo pitlane respeitando limite de velocidade de 80 km/h.

A lógica por trás da proibição é a impossibilidade de se especular o resultado que esse piloto teria se a penalização não fosse imposta. No fundo, faz sentido.

No caso de Lewis em Spa-Francorchamps, há uma grande diferença: Lewis foi penalizado duas horas depois do término da corrida, com acréscimo de 25 segundos ao seu tempo final na corrida. O mundo inteiro soube que o diretor de prova Charlie Whiting aprovou a manobra do inglês na La Source duas vezes e o mundo viu Lewis receber o troféu e ser entrevista na pós conferencia após a corrida.

O primeiro passa da McLaren então era fazer com que o seu apelo fosse admissível e para isso o representante legal da equipe, Mark Phillips, usou um precedente estabelecido pela própria FIA no ano passado na prova no GP do Japão. Vitantonio Liuzzi, como Lewis Hamilton,  foi penalizado pela FIA após o término do GP do Japão mas ainda assim o apelo do piloto italiano foi passível de julgamento pela Corte de Apelo da FIA.

Sob o ponto de vista legal, em qualquer corte do mundo, o precedente aberto pela FIA seria o suficiente para a McLaren ter o seu apelo julgado. E é a partir desse ponto que a história toma um rumo inusitado.

Consciente de tal precedente, a McLaren informou à própria FIA que conduziria a questão da “admissibilidade” usando o precedente de Tonio Liuzzi. Charlie Whiting ligou então para o Chefe dos Comissários naquela prova do Japão, Tony Scott-Andrews, que teria informado a Whiting que havia cometido um erro na penalização de Tonio Liuzzi e que o procedimento correto ao penalizar o italiano deveria ter sido um “Drive Trough”, o tal penalty que não poderia ser objeto de apelo.

Os advogados da FIA então escreveram à McLaren informando que “tendo conferido com o Chefe Permanente dos Comissários que assinou a Decisão no Japão, gostaríamos de lhes informar que há um erro no documento que informa o resultado da corrida [do Japão].” Em outras palavras, Tony Scott Andrews havia mudado de idéia.

O próximo passo da McLaren nessa pequena história demonstra bem com a equipe enxerga a integridade da FIA.

A equipe enviou uma delegação de advogados a Brands-Hatch no domingo, onde Scott Andrews estava como comissário em uma corrida, para checar in loco a veracidade da história que a própria FIA havia informado à McLaren. A resposta de Scott Andrews ao lhe ser mostrado o e-mail em que supostamente havia sua admissão de erro na prova do Japão foi: “que ultrajante”.

Em Paris, na Corte de Apelo, Tony Scott Andrews afirmou em uma carta que ao verificar o e-mail ficou extremamente surpreso com o seu conteúdo, que é grosseiro e falso. Scott Andrews ainda deixou claro que Charlie Whiting jamais o havia perguntado se ele havia errado no Japão e acrescentou: “Se [Charlie Whiting] houvesse me questionado se eu havia errado no Japão eu lhe teria dito que ‘não’.”

Em seu fala de encerramento, Mark Phillips, representante legal da McLaren chamou o e-mail de uma “infelicidade” e pediu para que houvesse uma reflexão e análise no procedimento da FIA com a questão de Tony Scott Andrews, e considerar como certos membros da FIA conduzem a si mesmos.”

Charlie Whiting, que foi amigo de Ayrton Senna e que tem uma persona respeitável entre equipes, chefes e pilotos, passou nessa por mentiroso publicamente, e jogou mais um tanto da credibilidade da FIA na lata do lixo.

Como é possível que se confie na entidade máxima que regulamentam o esporte se os membros dessa entidade metem em público de forma tão grosseira e burra para sustentar as falibilidades de suas próprias regras e regulamentos?

Qual é o objetivo da FIA ao tentar desacreditar o precedente clamado pela McLaren, algo com o qual o próprio advogado da FIA teria lidado muito bem?

Eu, particularmente, acredito que a McLaren e Lewis Hamilton sequer chegarão a ter o seu apelo julgado, e se por ventura o precedente aberto pela decisão de Scott Andrews na prova do Japão permitir que o apelo seja passível de julgamento, é quase impossível que a equipe vença a contenda.

Em qualquer corte do mundo, com base em apenas duas evidências, a McLaren seria favorita na querela.

Primeiro pelo regulamento mal escrito e dúbio, que não estabelece quando e como uma posição deva ser devolvida após uma chicane ser cortada. É tão flagrante a inconsistência e falhas na redação de tal regra, que a própria FIA teve que esclarecê-la pouco antes da prova de Monza.

E segundo pela dupla permissão que o próprio Charlie Whiting deu à McLaren no exato momento em que Lewis fazia a ultrapassagem em Kimi.

O problema para a equipe inglesa é que a base jurídica e regulamentar da FIA e a palavra final de seus juízes não é nada a não ser a palavra final de Max Mosley e por isso a impossibilidade de alcançar uma vitória.

A McLaren não vencerá a contenda como desde o início ficou claro, mas ao menos uma vez mais foi possível testemunhar até aonde a FIA pode ir, mentindo e ultrajando ex-membros de seu staff, para fazer valer o que eles chamam de imparcialidade.

A questão que permanece após testemunhar tudo isso para mim é por que eu ainda não desisti do esporte…

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ATUALIZAÇÃO:

Esse post foi finalizado pouco antes de a FIA rejeitar o apelo da McLaren agora há pouco, como eu havia previsto. Lewis permanece apenas um ponto a frente de Felipe Massa no campeonato.

Ao menos nos voltamos todos para a prova de Cingapura novamente.

AMANHÃ, A PENALIZAÇÃO DE LEWIS SERÁ JULGADA

(LEWIS EM PARIS NO ANO PASSADO: Imagem que se repetirá amanhã)

A FIA julgará amanhã, segunda-feira, o apelo da McLaren contra a penalização imposta a Lewis Hamilton no Grand Prix da Bélgica há três semanas. Lewis estará presente ao conselho da FIA em Paris, mas a expectativa geral é de que a McLaren perca o apelo, apesar do sentimento de revolta dos fãs do inglês ao redor do mundo.

Contra qualquer otimismo de Lewis e da McLaren há três fortes precedentes que apontam para uma derrota amanhã:

1º) Um apelo contra uma penalização imposta em corrida dificilmente é levado a julgamento no Conselho Mundial de Automobilismo, mesmo que a McLaren ternha a seu favor a estranha decisão de Charly Whiting de aprovar a manobra de Lewis para o pitwall da McLaren duas vezes e logo depois reportar o caso para a investigação dos comissários.

2º) A McLaren nos últimos meses foi derrotada em todas as apelações e solicitações ao conselho da FIA, o que não anima o mais otimista fã de Lewis para o julgamento de amanhã.

3º) Uma suposta absolvição no caso enfraqueceria politicamente os comissários da FIA e estabeleceria perigosos precedentes em futuros julgamentos.

Lewis comparecerá, mas é bem provavel que a McLaren e o piloto já saibam qual será o resultado amanhã. O jogo da McLaren e de Lewis no entanto é outro. O objetivo é ter Lewis, o piloto mais popular da Formula 1 no momento, mesmo que derrotado gerando má publicidade para a FIA e pondo pressão em cada decisão dos comissários nas últimas provas do campeonato. Politicamente, uma jogada inteligente.

QUEREM CASTRAR SPA-FRANCORCHAMPS

(LEWIS E ALONSO emparelham “perigosamente” na Eau Rouge em 2007)

Ao longo da semana passada, uma interessante discussão a respeito dos circuitos modernos da Formula 1, arquitetados por Hermann Tilke, brotou no F1Around. A conversa desenvolveu-se em torno do paradigma, Corridas monótonas X Hermann Tilke Design. Foi um grande prazer ter o talentoso Ron Groo comentando por aqui pela primeira vez, ele que talvez edite o mais original blog de Formula 1 da blogosfera brasileira.

Muito por sua originalidade e também pela desafiadora curva Eau Rouge, Spa-Francorchamps acabou sendo fortuitamente citado “an pasant” por Felipe Maciel na discussão. Spa talvez seja a pista mais amada pelos pilotos de Formula 1 e entre seus fãs confessos e apaixonados estão “apenas” Ayrton Senna, Michael Schumacher, Kimi Raikkonen e Lewis Hamilton.

Esse é um time de pesos pesados da Formula 1, que talvez ficassem chocados ao saber que há um plano para encurtar a tradicional pista de Spa, a mais longa do calendário com 7.004 km, o que leva as corridas por lá a terem apenas 44 voltas. A castração ocorreria  ao longo da curva Pouhon, ligando este trecho diretamente com a Blanchimont, perdendo um grande trecho de florestas e mais algumas curvas preciosas. A razão para o crime seria deixar a Formula 1 “mais atrativa para os fãs”. A pista, segundo Bernie, “é muito longa.”

Você, amigo, que é fã do esporte, por acaso já lhe foi perguntado o que deixaria a Formula 1 mais atrativa? Eu garanto que castrar Spa não seria uma dessas soluções.

Coincidentemente, no release pré Bélgica desse ano, Heikki Kovalainen citou exatamente a Pouhon como uma das curvas mais difíceis de Spa: uma curva longa, em descida, aonde deve-se tirar levemente o pé para não ir de encontro a barreira de pneus que fica naquele ponto. É nesse momento, opina Heikky, que um piloto faz a devida diferença em uma volta.

Na mesma matéria, Luc Willems, porta voz oficial do circuito negou veementemente a veracidade da história, assegurando que Spa “é um circuito único e assim continuará sendo.” Há uma feliz sensação em ler isto, o que nos dá a certeza de que alguém preocupa-se de  verdade com a herança da Formula 1. A única nota triste é que Max e Bernie não fazem parte dessas pessoas.

Spa está entre os tesouros da Formula 1 que jamais deveriam ser tocados pela sanha de Bernie Ecclestone em fazer dinheiro ou de Max Mosley em “promover” entretenimento.

Amanhã, eu falo mais de Spa e exercito a minha irresistível mania de tentar prever quem poderá vencer por lá no domingo.

 

Quem é Alan Donnelly

(ALAN DONNELLY – vistoriando a pista de Interlagos no ano passado)

A controvérsia ao redor da comunidade de Formula 1 mundial envolvendo a branda punição de Felipe Massa deixa no ar algumas certezas. A primeira: a discussão a respeito dos meandros, detalhes e tecnicalidades da Formula 1 estão longe, muito longe, de serem discutidas de maneira séria e profunda no Brasil. Toda a imprensa, inclusive os BLOGs, ignorou a questão. Quando teremos uma imprensa especializada de verdade é algo para se discutir no futuro.

A segunda, e mais séria, é que a Formula continua sendo regida, dos comissários de pista à sua presidência, pela gang mafiosa de Max Mosley. O homem não parece minimamente interessado em parecer isento na forma como gerencia a categoria.

Na enxurrada de notícias da pré –temporada desse ano, talvez uma tenha passado despercebida para a comunidade da Formula 1. O Grand Prix.com publicou uma nota no dia 14 de janeiro na qual abordava o processo de substituição de Tony Scott Andrews, comissário permanente da FIA. Scott foi nomeado comissário permanente havia apenas dois anos e sua continuidade no posto deixava a certeza de independência e sensatez nas decisões tomadas no calor do momento de uma competição.

Com a saída de Scott Andrews, Max Mosley nomeou como consultor em decisões que “demandem rapidez e agilidade”, Alan Donnelly, conhecido e bem sucedido “economista” que durante alguns anos foi líder do Grupo de Trabalho do parlamento europeu.

Donnelly mantém uma amizade e parceria de anos com Max Mosley e o estreitamente dessa parceria nos últimos anos parece ter se convertido em uma cooperação mútua a ponto da própria companhia de relações públicas de Donnelly, a Sovereign Strategy, ter como clientes a FOM e a FIA.

Como você deve estar percebendo, a rede de ligações e interesses começa a fazer sentido e o parágrafo final do pequeno, mas valioso artigo do Grand Prix.com, é surpreendente:

“Ele [Donnelly] desistiu da política em 2000 e fundou a sua própria empresa de Relações Públicas, que é chamada Sovereign Strategy, com sede no prédio pertencente à FIA em Trafalgar Square, Londres

De Acordo com o website da Sovereign Strategy, seus clientes incluem a FIA, a FOM [Formula One Management Ltd] e FERRARI.”

Nesse momento, a lista de clientes presente no site da Sovereign Strategy não inclui mais a Ferrari, mas pesquisando em arquivos da internet, o SIDEPODCAST descobriu que a Sovereign Strategy retirou o nome da Ferrari de sua lista no intervalo entre o fim da temporada passada e a nomeação de Donnelly feita por Max Mosley no início desse ano. O rastro deixado por Donnely pode ser encontrado e comprovado nesse link: clique aqui.

Se toda essa rede intricada de clientes e parcerias estabelecida por Max Mosley, Alan Donnelly (hoje o homem que julga o mérito em questões de pista) e a Ferrari não são um belo e brabo conflito de interesses eu simplesmente não sei mais o que deveria ser.

Alguém em sã consciência achar que há isenção real e verdadeira em decisões de pista quando se tem um “fornecedor” da Ferrari tomando as decisões, é algo que está além da minha pobre capacidade de raciocínio.

A CONTROVÉRSIA NA VITÓRIA DE MASSA

Após ter bloqueado o caminho de Adrian Sutil logo depois de sua parada nos boxes na volta 37, Felipe Massa esteve sob investigação dos comissários do Grande Prêmio de Valência. O mérito na questão de uma possível penalização a Felipe incidiu sob a segurança.

A FIA, no entanto, apenas multou e advertiu o brasileiro, algo que em face da equilibrada luta pelo campeonato desse ano, pode ser ecarado quase como uma absolvição.

A redação que determina a punição pela FIA foi também bem confusa:

“Saída perigosa do pit stop, porém não foi obtida nenhuma vantagem.”

Se os carros se tocassem naquele ponto poderiam causar um grave acidente e pôr em perigo uma parcela dos profissionais que transitam pelos boxes, ou mesmo quem permanece nos pit walls, colhendo informações e gerenciado pilotos e mecânicos.

A controvérsia toma forma quando observamos que no mesmo fim de semana, Karun Chandhok na prova da GP2, recebeu como penalização um drive-through por ter feito exatamente a mesma manobra.

A FIA tende a usar os mesmos comissários tanto nas provas da GP2 quanto nas provas de Formula 1 e o fato de esses comissários terem estabelecido um precedente regulamentar nos procedimentos de segurança para logo em seguida infringi-lo, não obedecendo assim ao mesmo padrão no gerenciamento da segurança de provas separadas em suas realizações por poucas horas é algo, no mínimo, suspeito.

A Ferrari já tem um caso semelhante a seu favor esse ano, quando Kimi Raikkonen escapou de uma penalização ao andar toda uma perna de corrida com peças de seu carro soltando-se, algo veementemente proibido pelo prórpio regulamento da FIA, pois põe em risco a integridade física dos outros pilotos.

A PEDRA NO CAMINHO DE MAX

Durante o fim de semana, por obra de uma feliz coincidência, me vi nas mãos com a edição de julho de 2007 da nova revista da Editora Globo, a Época Negócios.

Há nessa edição um perfil de Rupert Murdoch, o magnata das comunicações australiano, e mais duas importantes informações que ajudam a corroborar os boatos de que Murdoch é o principal responsável pela derrocada de Max Mosley.

A primeira informação é que dentre as suas várias empresas, há também a ITV, a responsável até aqui pelas transmissões da Formula 1 para a Inglaterra. Martin Brundle, a quem Max Mosley processa por difamá-lo em um artigo do TIMES, outra empresa da News Corp, também comenta para a iTV.

A iTV anunciou nesse início de ano que não mais transmitirá a Formula 1 a partir de 2009. A razão expressa pelo canal inglês era de caráter “estritamente comercial.” A BBC assumirá as transmissões a partir de 2009.

A opinião geral é de que a iTV fez um ótimo trabalho em 14 anos de transmissão, inclusive criando novos parâmetros e conceitos na transmissão que a BBC faltamente deverá dar continuidade.

Fazendo a continha simples de dois mais dois, não é difícil entender que a Bernie Ecclestone, cabeça da FOM, a entidade responsável pela comercialização dos direitos da Formula 1, ouviu Max Mosley e resolveu intervir na relação comercial da iTV com a Formula 1, por conta de Martin Brundle ter o devido suporte do NEWS CORP.

A segunda e mais importante informação é que atacar inimigos através de seus jornais é prática comum de Rupert Murdoch. Ele já tomou tal ação usando o New York Post há alguns anos atrás.

Ao verificar o tamanho do grupo de mídia de Murdoch, percebe-se que Max Mosley mexeu num vespeiro gigante. A NEWS CORP tem um faturamento anual de mais de 25 bilhões de dólares, mais de 44 mil funcionários ao redor do mundo ao dispor de Murdoch, e sua atuação estende-se da Austrália, passa pela Ásia, Estados Unidos e aporta no Brasil. É um império de mídia onde o sol nunca se põe.

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